Três éfes<br> e vai ao fundo

Henrique Custódio

O arquipélago de ofensivas neoliberais desencadeadas pelo Governo para fazer regredir o País à miséria salazarista do «Fátima, Futebol e Fado» (os três éfes), reduziu-se subitamente a uma ilha solitária com Passos Coelho a esbracejar.

Estranhamente, quem precipitou o afogamento deste arquipélago maligno foi o próprio Passos Coelho quando, de rompante, decidiu anunciar ao País não apenas que todos os trabalhadores, públicos ou privados, iriam ver cortados os subsídios de férias e de Natal em 2013, idem para os reformados da Função Pública, como acrescentou uma medida jamais vista no mundo inteiro: a de que todos os trabalhadores passarão a pagar mais 7 pontos percentuais de TSU (a taxa para a Segurança Social) e, em contrapartida, os patrões descontarão menos 5,75 pontos percentuais da mesma taxa.

Posto isto, o chanceler do reino rumou ao Tivoli para trautear a «Nini», fazendo coro a Paulo de Carvalho e às suas comemorações artísticas. Era o descanso de Coelho, o Caçador.

O pior é que o Caçador acabou repentinamente caçado pois, neste País e parafraseando o Eça, todos à uma malharam no Coelho. As adjectivações surdiram, sibilantes, cravando-se em Passos como as setas romanas em S. Sebastião: «ignorante», «impreparado», «insensível», «inculto», «irresponsável», «reaccionário» são apenas alguns dos epítetos vindos de todos os lados, incluindo os que foram teúdos e manteúdos desta governação.

Com relevo para as mexidas nas TSU (que, linearmente, poriam os trabalhadores a descontar para os patrões), as «medidas» anunciadas por Coelho incendiaram o País, que no passado dia 15 inundou as ruas num protesto colossal, manifestando-se em mais de 40 cidades e em todo o território nacional.

É claro que «os ratos já estão a abandonar o navio», como também foi glosado na plêiade de comentadores da barbacã.

Mas o rato-mor é Paulo Portas, um velho utente das boas-graças na comunicação social. Desta vez, o homem excedeu-se no oportunismo e na desvergonha: foi para o exterior quando estas medidas fatais andavam a ser cozinhadas, recusando-se a falar porque «no estrangeiro só faço política externa». Depois anunciou «nada dizer até reunir com os órgãos do partido» – deixando assim entredito que «estava em desacordo» –, para, finalmente, anunciar o que se esperava: que «estava em desacordo» mas, em nome da Pátria, mantinha-se «firme» no apoio à coligação. Tudo na presunção de se mostrar dentro deste Governo e fora das suas malfeitorias.

Esta trafulhice miserável foi vista pelos jornais e jornalistas como mais uma «manobra táctica» do inefável Portas, mas o que se há-de dizer? Talvez «diz-me quem proteges e dir-te-ei quem és»...

Quem também farejou logo a periclitância do Governo Passos foram os donos da troika, que já ameaçam com «sanções», tal como fizeram na Grécia.

Vai sendo tempo de mostrar à burguesia dos nossos desgovernos, que os chantagistas do euro têm mais a perder com a saída dos «intervencionados» do que os próprios...



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